II Domingo do Tempo Comum

 

 

Ano B

 

17 de Janeiro de 2021

 

 

 

         A liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum propõe-nos uma reflexão sobre a disponibilidade para acolher os desafios de Deus e para seguir Jesus.
         A primeira leitura apresenta-nos a história do chamamento de Samuel. O autor desta reflexão deixa claro que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, o qual vem ao encontro do homem e chama-o pelo nome. Ao homem é pedido que se coloque numa atitude de total disponibilidade para escutar a voz e os desafios de Deus.
         O Evangelho descreve o encontro de Jesus com os seus primeiros discípulos. Quem é “discípulo” de Jesus? Quem pode integrar a comunidade de Jesus? Na perspectiva de João, o discípulo é aquele que é capaz de reconhecer no Cristo que passa o Messias libertador, que está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e da entrega, que aceita o convite de Jesus para entrar na sua casa e para viver em comunhão com Ele, que é capaz de testemunhar Jesus e de anunciá-l’O aos outros irmãos.
         Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Corinto a viverem de forma coerente com o chamamento que Deus lhes fez. No crente que vive em comunhão com Cristo deve manifestar-se sempre a vida nova de Deus. Aplicado ao domínio da vivência da sexualidade – um dos campos onde as falhas dos cristãos de Corinto eram mais notórias – isto significa que certas atitudes e hábitos desordenados devem ser totalmente banidos da vida do cristão.
(Dehonianos)

 

 

 

Homilia

O Batismo de Jesus

A Festa do Batismo do Senhor, celebrada no Domingo depois da Epifania, encerra o ciclo das Festas da Manifestação do Senhor, o ciclo de Natal. Comemoramos o Batismo de Jesus, por João Batista, nas águas do rio Jordão. Sem ter mancha alguma que purificar, Jesus quis submeter-se a esse rito, tal como se submetera às demais observâncias legais que também não o obrigavam.

O Senhor desejou ser batizado, diz Santo Agostinho, “para proclamar com a sua humildade o que para nós era uma necessidade”. Com o Batismo de Jesus, ficou preparado o batismo cristão, diretamente instituído por Jesus Cristo e imposto por Ele como lei universal, no dia da sua Ascensão: Todo poder me foi dado no céu e na terra, dirá o Senhor; ide, pois, ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 18-19).

O dia em que fomos batizados foi o mais importante da nossa vida, pois nele recebemos a fé e a graça. Antes de recebermos o batismo, todos nós nos encontrávamos com a porta do Céu fechada e sem nenhuma possibilidade de dar o menor fruto sobrenatural.

Devemos agradecer a Deus a Graça do Batismo. Agradecer que nos tenha purificado a alma da mancha do pecado original, bem como de qualquer outro pecado que tivéssemos naquele momento. A água batismal significa e actualiza de um modo real o que é evocado pela água natural: a limpeza e a purificação de toda a mancha e impureza.

“Graças ao sacramento do Batismo tu te converteste em templo do Espírito Santo: não te passe pela cabeça – exorta São Leão Magno – afugentar com as tuas más acções um hóspede tão nobre, nem voltar a submeter-te à servidão do demónio, porque o teu preço é o sangue de Cristo.”

Na Igreja, ninguém é um cristão isolado. A partir do Batismo, o cristão passa a fazer parte de um povo, e a Igreja apresenta-se como a verdadeira família dos filhos de Deus. O Batismo é a porta por onde se entra na Igreja.

“E na Igreja, precisamente pelo Batismo, somo todos chamados à santidade” (LG 11 e 42), cada um no seu próprio estado e condição. A chamada à santidade e a consequente exigência de santificação pessoal são universais: todos, sacerdotes e leigos, estamos chamados à santidade; e todos recebemos, com o Batismo as primícias dessa vida espiritual que, por sua própria natureza, tende à plenitude. É importante lembrar o carácter sacramental do Batismo “um certo sinal espiritual e indelével” impresso na alma no momento (Dz, 852). É como um selo que exprime o domínio de Cristo sobre a alma do batizado. Cristo tomou posse da nossa alma no momento em que fomos batizados. Ele nos resgatou do pecado com a sua Paixão e Morte.

Com estas considerações, é fácil compreender porque é de desejar que as crianças recebam logo o Batismo. Desde cedo a Igreja pediu aos pais que batizassem os seus filhos o quanto antes. É uma demonstração prática de fé. Não é um atentado contra a liberdade da criança, da mesma forma que não foi uma ofensa dar-lhe a vida natural, nem alimentá-la, limpá-la, curá-la, quando ela própria não podia pedir esses bens. Pelo contrário, a criança tem direito a receber essa graça. No Batismo está em jogo um bem infinitamente maior do que qualquer outro: a Graça e a Fé; talvez a salvação eterna. Só por ignorância e por uma fé adormecida se pode explicar que muitas crianças sejam privadas pelos seus próprios pais, já cristãos, do maior dom da sua vida.

Também nós fomos marcados pelo Espírito Santo. No Batismo, Ele derramou-se sobre nós. Fomos chamados a viver segundo o Espírito. Isto significa um ato de fé na presença actuante do Espírito Santo em nós. Implica uma disponibilidade para deixar-se conduzir por ele a fim de realizar uma missão como a de Cristo.

Em virtude do Batismo somos chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo. Como diz o Documento de Aparecida, nº 209: “Os fiéis leigos são os cristãos que estão incorporados a Cristo pelo Batismo, que formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: sacerdote, profeta e rei. Realizam, segundo a sua condição, a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo. São homens da Igreja no coração do mundo e homens do mundo no coração da Igreja.”

“Enquanto batizado, o homem deve sentir-se enviado pela Igreja a todos os campos de actividade que constituem sua vocação e missão, para dar testemunho como discípulo e missionário de Jesus Cristo…”

Mons. José Maria Pereira

 

 

DOMINGO DO BOM PASTOR

 

Queridos Irmãos e Irmãs
Dilectos Ordenandos

 

Prezados amigos, nesta hora em que vós, mediante o Sacramento da Ordenação sacerdotal, sois introduzidos como pastores ao serviço do Pastor supremo Jesus Cristo, é o próprio Senhor que no Evangelho nos fala do serviço em favor do rebanho de Deus. A imagem do pastor vem de longe.

No Antigo Oriente, os reis costumavam designar-se a si mesmos como pastores dos seus povos.

No Antigo Testamento, Moisés e David, antes de serem chamados a tornar-se chefes e pastores do Povo de Deus, foram efectivamente pastores de rebanhos. Nas dificuldades do período do exílio, diante do fracasso dos pastores de Israel, isto é, dos chefes políticos e religiosos, Ezequiel traçou a imagem do próprio Deus como Pastor do seu povo. Através do profeta, Deus disse: “Como o pastor se preocupa com o seu rebanho… assim me preocuparei com o meu” (Ez 34, 12).

Agora, Jesus anuncia que esta hora já chegou: Ele mesmo é o Bom Pastor, em quem o próprio Deus cuida da sua criatura, o homem, reunindo os seres humanos e conduzindo-os à verdadeira pastagem. São Pedro, a quem o Senhor ressuscitado tinha confiado a função de apascentar as suas ovelhas, de se tornar pastor com Ele e por Ele, qualifica Jesus como o “Archipoimen” o Supremo Pastor (cf. 1 Pd 5, 4), e assim tenciona dizer que só é possível ser pastor da grei de Jesus Cristo por meio dele e na mais íntima comunhão com Ele. É precisamente isto que se exprime no Sacramento da Ordenação: mediante o Sacramento o sacerdote é totalmente inserido em Cristo a fim de que, partindo dele e agindo em vista dele, realize em comunhão com Cristo o serviço do único Pastor, Jesus, em quem Deus como homem quer ser o nosso Pastor.

O Evangelho que ouvimos neste domingo é apenas uma parte do grande discurso de Jesus sobre os pastores. Neste trecho, o Senhor diz-nos três coisas sobre o verdadeiro pastor: ele dá a própria vida pelas suas ovelhas; conhece-as e elas conhecem-no; e está ao serviço da unidade. Antes de reflectir sobre estas três características essenciais do ser pastor, talvez seja útil recordar brevemente a parte precedente do discurso sobre os pastores no qual Jesus, antes de se designar a si mesmo como Pastor, diz algo que nos surpreende: “Eu sou a porta” (Jo 10, 7). É através dele que se deve entrar no serviço de pastor. Jesus põe em evidência de maneira muita clara esta condição fundamental, afirmando: “Quem… sobe por outro lado, é um ladrão e salteador” (Jo 10, 1). Esta palavra,”sobe” anabainei,emgrego evoca a imagem de alguém que escala um recinto para ir, ultrapassando, aonde legitimamentenãopoderia chegar. “Subir” aqui pode-se ver também a imagem do carreirismo, da tentativa de chegar “ao alto”, de procurar uma posição por meio da Igreja: servir-se, não servir.

É a imagem do homem que, através do sacerdócio, quer tornar-se importante, ser uma personagem; a imagem daquele que tem em vista a sua própria exaltação e não o humilde serviço a Jesus Cristo. No entanto, a única subida legítima rumo ao ministério do pastor é a cruz. Esta é a autêntica ascese, esta é a verdadeira porta. Não desejar tornar-se pessoalmente alguém mas, ao contrário, servir o outro, servir Cristo e, assim, através dele e com Ele, colocar-se à disposição dos homens que Ele procura, que Ele quer conduzir pelo caminho da vida. Entra-se no sacerdócio através do Sacramento e isto significa precisamente: mediante a entrega de si mesmo a Cristo, a fim de que Ele disponha de mim; a fim de que eu O sirva e siga o seu chamamento, mesmo que este venha a entrar em oposição com os meus desejos de auto-realização e estima. Entrar pela porta, que é Cristo, quer dizer conhecê-lo e amá-lo cada vez mais, para que a nossa vontade se una à sua e o nosso agir se torne um só com o seu. Estimados amigos, por esta intenção queremos rezar sempre de novo, desejamos empenhar-nos especificamente neste sentido, isto é, para que Cristo cresça em nós, que a nossa união com Ele se torne cada vez mais profunda, de tal maneira que através de nós o próprio Cristo apascente.

Observemos agora mais de perto as três afirmações fundamentais de Jesus sobre o bom pastor. A primeira, que com grande vigor permeia todo o discurso sobre os pastores, afirma: o pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mistério da Cruz encontra-se no centro do serviço de Jesus como pastor: este é o grande serviço que Ele presta a todos nós. Ele entrega-se a si mesmo, e não apenas num passado longínquo. Na Sagrada Eucaristia, realiza isto todos os dias, doando-se a si mesmo mediante as nossas mãos, entregando-se a nós. Por isso, justamente, no âmago da vida sacerdotal encontra-se a Sagrada Eucaristia, em que o sacrifício de Jesus na Cruz permanece contínua e realmente presente no meio de nós. E a partir disto aprendemos também o que significa celebrar a Eucaristia de maneira adequada: trata-se de um encontro com o Senhor, que por nós se despoja da sua glória divina, se deixa humilhar até à morte de Cruz e assim se entrega a si mesmo a todos, a cada um de nós. É muito importante para o sacerdote a Eucaristia quotidiana, na qual se expõe sempre de novo a este mistério; coloca-se sempre de novo nas mãos de Deus, experimentando ao mesmo tempo a alegria de saber que Ele está presente, me acolhe, me anima, me carrega sempre de novo e me dá a mão, entregando-se a si mesmo a mim. A Eucaristia deve tornar-se para nós uma escola de vida, onde aprendemos a doar a nossa própria vida. A vida não se entrega somente no momento da morte, e nem apenas na forma do martírio. Nós devemos doá-la no dia-a-dia. É necessário que eu aprenda diariamente que não possuo a minha vida para mim mesmo. Devo aprender dia após dia a abandonar-me a mim mesmo; a pôr-me à disposição para aquilo que Ele, o Senhor, precisar de mim no momento, mesmo que outras coisas me pareçam mais bonitas e mais importantes. Entregar a vida, não tomá-la. É precisamente assim que vivemos a experiência da liberdade. A liberdade de nós próprios, a vastidão do ser. É exactamente assim, no facto de sermos úteis, de sermos pessoas das quais o mundo tem necessidade, que a nossa vida se torna importante e bela. Somente aquele que entregar a própria vida encontrá-la-á.

Como segunda coisa, o Senhor diz-nos: “Eu… conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas conhecem-me, assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai” (Jo 10, 14-15). Nesta frase, são duas relações que parecem totalmente diferentes e aqui encontram-se entrelaçadas uma com a outra: a relação entre Jesus e o Pai, e a relação entre Jesus e os homens que lhe são confiados. No entanto, ambas as relações caminham mesmo juntas porque os homens, no final de contas, pertencem ao Pai e estão à procura do Criador, de Deus. Quando se dão conta de que alguém fala unicamente em seu próprio nome e só haure de si mesmo, então intuem que é demasiado pouco, que ele não pode ser aquilo de que estão à procura. Porém, quando numa pessoa ressoa uma outra voz, a voz do Criador, do Pai, abre-se a porta da relação que o homem aguarda. Por conseguinte, assim deve ser portanto no nosso caso. Em primeiro lugar, no nosso íntimo, devemos viver a relação com Cristo e através dele com o Pai; somente então podemos compreender autenticamente os homens, somente à luz de Deus é possível compreender a profundidade do homem. Assim, quem nos ouve dá-se conta de que não falamos de nós mesmos, de algo, mas do verdadeiro Pastor. Obviamente, nas palavras de Jesus está também encerrada toda a tarefa pastoral prática de seguir os homens, de ir ao seu encontro, de se abrir às suas necessidades e às suas exigências. Sem dúvida, é fundamental o conhecimento prático e concreto das pessoas que me são confiadas e obviamente é importante compreender este “conhecer” os outros em sentido bíblico: não existe um verdadeiro conhecimento sem amor, sem uma relação interior, sem uma profunda aceitação do outro. O pastor não pode contentar-se com o conhecimento de nomes e de datas. O seu conhecer as ovelhas deve ser sempre também um conhecer com o coração. Todavia, em última análise isto só pode realizar-se se o Senhor abrir o nosso coração; somente se o nosso conhecimento não vincular as pessoas ao nosso pequeno “eu” particular, ao nosso próprio coração mas, ao contrário, fazer-lhes sentir o Coração de Jesus, o Coração do Senhor. Deve ser um conhecer com o Coração de Jesus e para Ele orientado, um conhecer que não vincule o homem a mim, mas que o guie rumo a Jesus, tornando-o assim livre e aberto. E assim também nós, entre os homens, nos tornamos próximos uns dos outros. A fim de que este modo de conhecer com o Coração de Jesus e de não me unir a mim mesmo, mas ao Coração de Jesus e de criar assim uma comunidade autêntica, para que isto nos seja concedido, queremos pedir sempre de novo ao Senhor.

Enfim, o Senhor fala-nos do serviço da unidade, confiado ao pastor: “Tenho ainda outras, que não são deste redil… hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16). É a mesma coisa que João repete depois da decisão que o sinédrio tomou, de matar Jesus, quando Caifás disse que seria melhor se um só morresse pelo povo, do que a nação inteira perisse. João recorda nestas palavras de Caifás uma palavra profética e acrescenta: “Jesus devia morrer pela nação. E não só pela nação, mas também para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos” (Jo 11, 52). Revela-se a relação entre a Cruz e a unidade; a unidade paga-se com a Cruz. Todavia, sobressai acima de tudo o horizonte universal do agir de Jesus. Se Ezequiel, na sua profecia sobre o pastor, tinha em vista o restabelecimento da unidade entre as tribos dispersas de Israel (cf. Ez 34, 22-24), trata-se agora não só da unificação do Israel disperso, mas da unificação de todos os filhos de Deus, da humanidade da Igreja dos judeus e dos pagãos. A missão de Jesus diz respeito à humanidade inteira e, por isso, à Igreja é confiada uma responsabilidade por toda a humanidade, a fim de que ela reconheça Deus, aquele Deus que, por todos nós, se fez homem em Jesus Cristo, sofreu, morreu e ressuscitou. A Igreja jamais deve contentar-se com a plêiade daqueles que, num dado momento, ela alcançou e dizer que os outros estão bem assim: os muçulmanos, os hindus e assim por diante. A Igreja não pode retirar-se comodamente nos limites do seu ambiente. Ela tem a responsabilidade da solicitude universal, deve preocupar-se por todos e com todos. De modo geral, devemos “traduzir” esta grande tarefa nas nossas respectivas missões. Obviamente um sacerdote, um pastor de almas, deve em primeiro lugar preocupar-se com aqueles que crêem e vivem com a Igreja, que nela procuram o caminho da vida e que, por sua vez, como pedras vivas, edificam a Igreja e assim constróem e ao mesmo tempo sustentam também o sacerdote. Todavia, devemos também sempre de novo como diz o Senhor sair “pelas estradas e caminhos” (Lc 14, 23) para transmitir o convite de Deus ao seu banquete, inclusive àqueles homens que até agora não ouviram falar dele, ou por ele ainda não foram tocados interiormente. Este serviço universal, serviço em prol da unidade, possui muitas formas. Faz parte dele sempre também o compromisso pela unidade interior da Igreja para que ela, além de todas as diversidades e limites, constitua um sinal da presença de Deus no mundo, o único que pode criar tal unidade.

A Igreja antiga encontrou na escultura do seu tempo a figura do pastor que carrega uma ovelha nos próprios ombros. Talvez estas imagens façam parte do sonho idílico da vida campestre que tinha fascinado a sociedade dessa época. No entanto, para os cristãos esta figura tornava-se com toda a naturalidade a imagem daquele que se encaminhou para buscar a ovelha tresmalhada: a humanidade; a imagem daquele que nos acompanha nos nossos desertos e nas nossas confusões; a imagem daquele que tomou sobre os seus ombros a ovelha perdida, que é a humanidade, e a leva para casa. Ela tornou-se a imagem do verdadeiro Pastor, Jesus Cristo. Confiemo-nos a Ele. Prezados amigos, nós vos confiamos especialmente nesta hora, a fim de que Ele vos conduza e vos carregue todos os dias; a fim de que vos ajude a tornar-vos, por meio dele e com Ele, bons pastores da sua grei. Amém!

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

 

 

 A CAMINHO DE EMAÚS

Os discípulos caminhavam desanimados. Deixaram Jerusalém frustrados e voltavam para Emaús. Como eles, todos nós somos caminhantes. A vida é uma longa estrada por onde seguimos, caímos, levantamos, retrocedemos, avançamos… E precisamos de forças no caminho.

Precisamos de forças e de orientação para caminhar com mais ânimo e com direção, bem diferente daqueles dois discípulos que além da tristeza estavam indo no sentido contrário (iam para Emaús, fugiam de Jerusalém!). Daí entrou em cena um peregrino desinformado, que não sabia o que aconteceu por aquelas bandas. Ele se aproximou, caminhou junto, escutou… Era preciso escutar aquela partilha: “Estávamos cheios de esperança, mas Jesus morreu, e agora é o fim!” Somos também peregrinos que podemos contar nossa história, nossas conquistas, nossas frustrações. O desabafo é uma atitude de libertação, desde que se tenha um bom escutador. Alguém que faça perguntas relevantes, que questione de um modo qualificado: “Será que não era necessária a cruz?”

Um segundo passo deu o peregrino desinformado: Ele revelou as escrituras. Recordou a Palavra, fez com que o caminho tivesse sentido, reanimou-os, abrasou os corações. Cada vez que ouvimos o Senhor falar, nossa vida pode ser a mesma, mas ganha novo sentido. A estrada é a mesma (um caminho que liga Jerusalém a Emaús), mas o sentido agora é novo: os discípulos retornam ao lugar das promessas. Devemos sempre escutar o que o Senhor tem a nos falar e recobrar o sentido da estrada.

O peregrino queria seguir. “Já é tarde, fica conosco”, responderam os dois caminhantes. O peregrino ficou e partiu o pão. Não faltava mais nada, pois só o Mestre faria isto: “Ele ressuscitou!” Nós reconhecemos a presença do Senhor no partir do pão. Em cada missa, nossos olhos se abrem e reconhecemos que Ele está vivo, que somos a comunidade dos filhos de Deus que se reúnem para celebrar o Cristo vivo. Percebemos que as dores da vida são parte do caminho e que a cruz é necessária; avaliamos o sentido do nosso caminhar e podemos mudar de direção.

Depois de partir o pão, o Senhor desapareceu. Animados, os dois discípulos partiram para anunciar aos irmãos – “o Senhor Ressuscitou e agora o vimos!” Na verdade o Senhor nunca some, Ele continua presente, visível no pão, na comunidade, em nossos corações. Hoje ainda Cleofas e outro discípulo continuam anunciando que Ele está vivo, ouve nossas dores, dá novo sentido à vida, parte o pão e nos envia. Somos seus discípulos missionários que desejam ver este mundo mais perto do Reino sonhado pelo Pai antes da fundação do mundo. Hoje Ele nos escuta: o que queremos contar a Ele? Hoje sua Palavra é proclamada: o que ela nos diz? Hoje o seu pão é partido: e temos o reconhecido e partilhado com quem precisa do mesmo alimento? Hoje Ele faz de conta que desapareceu, porém continua caminhando ao nosso lado: “Eis que estarei convosco até o fim dos tempos”.

 

Pe. Roberto Nentwig 

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

As duas asas da santidade

O que é mais importante: amar a Deus ou conhecê-Lo?
A inteligência basta para nos salvar? Ou, pelo contrário,
o amor exclui a aplicação da inteligência?

I – Criados para amar

O Santo Cura d’Ars, apresentado pela Igreja como modelo dos sacerdotes, retornando em certa ocasião do povoado francês de Savigneux, começou a cho­rar… Algum tempo depois, re­velou ele num sermão o motivo do seu pranto: “Eu voltava de Sa­vigneux. Os passarinhos cantavam no bosque, e eu me pus a chorar. Pobres animaizinhos, pensava eu, Deus vos criou para cantar e vós cantais… O homem que foi feito para amar a Deus não O ama!”.

Grande parte da vida de São João Batista Maria Vianney transcorreu no século XIX, cujas circunstâncias históricas tor­nam compreensível a sua tristeza. Mas se ele estivesse hoje en­tre nós, talvez não conseguisse enxugar uma lágrima sem derra­mar outra, porque, muito mais que naquela época, os homens de nossos dias não amam a Deus. Entretanto, nisto consiste o Primeiro Mandamento, o qual resume todos os demais, como Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina no 31º Domingo do Tem­po Comum.

II – O Primeiro Mandamento

De acordo com a narração dos sinópticos, as contendas entre o Divino Mestre e seus inimigos atingiram o auge nas vésperas da Paixão. São Marcos relata a sequência de invectivas movidas pelos príncipes dos sacerdotes, escribas e anciãos, fariseus e herodianos, e finalmente pelos saduceus (cf. Mc 11, 27—12, 27). Estes últimos, que não admitiam a res­surreição dos mortos, indagaram com quem deveria ficar, post mortem, aquela que fora esposa de sete maridos. A resposta de Jesus mostrou o erro em que incorriam, por negarem a ressur­reição e por considerarem a vida futura de modo materialista. A despeito do ódio que os fariseus nutriam por Cristo, causou-lhes não pequena satisfação comprovar como Ele deixara seus inter­locutores de lábios amarrados, pois a ressurreição era um dos pontos de divergência entre ambas as seitas.

Boa intenção tisnada pela vaidade humana?

Naquele tempo, 28b um mestre da Lei aproximou-se de Jesus e perguntou: “Qual é o primeiro de todos os Mandamentos?”

Concebe-se, no contexto acima referido, a atitude deste doutor da Lei — também fariseu (cf. Mt 22, 34-35a) —, que veio ter com Nosso Senhor demonstrando, segundo a descrição de São Marcos, certa retidão de espírito e boas intenções. O real motivo de sua pergunta, no entanto, é discutível: euforia incon­tida pela vitória de Jesus? Desejo de chamar a atenção sobre si e de competir com Ele por pura vanglória, ostentando seus co­nhecimentos da Escritura? São Mateus atesta ter interrogado o Mestre “para pô-Lo à prova” (Mt 22, 35b), expressão que “nem sempre há de ser interpretada em mau sentido, já que o verbo pode significar, por exemplo, provar para saber”.2

Uma Lei eterna

29 Jesus respondeu: “O primeiro é este: Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30 Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força!”

Jesus Cristo responde de forma muito direta e amável, propondo logo de início o Primeiro Man­damento, tal como era entendido pelo povo ju­deu, ou seja, um ponto pacífico e incontestável: Deus deve ser amado sobre todas as coisas.

Trata-se de um pre­ceito entregue no Monte Sinai a Moisés, quem o transmitiu ao povo, como narra a primeira leitura (Dt 6, 2-6) deste domin­go; sua origem, porém, é eterna, pois existe no seio da Santíssima Trindade, desde antes da criação do mundo. O Pai e o Filho, ao Se contemplarem mutuamente, amam-Se com um amor tão rico e tão fecundo que d’Eles procede uma Terceira Pessoa, igual a ambos: o Espírito Santo. Pela benevolência divina, esta Lei foi ampliada, abarcando não só os passarinhos que, cantando, co­moveram o Cura d’Ars, mas também a nós, homens. “Amamos, porque Deus nos amou primeiro” (I Jo 4, 19). Sim, nossa carida­de não é mais que uma restituição pelos favores sem conta que de sua bondade recebemos. Como Criador, Ele nos deu o ser, nos mantém e nos manterá para sempre; como Redentor, nos salvou, encarnando-Se e sofrendo os tormentos da Paixão; co­mo Pai, quis introduzir em nós a vida divina, “para que sejamos chamados filhos de Deus” (I Jo 3, 1). Ele é a nossa bem-aven­turança! O Bem por excelência, o Bem substancial, o Bem em essência é Deus. É, portanto, na adesão total a Ele, pela prática deste Mandamento — e não nos gozos terrenos e fragmentários — que encontramos a plena felicidade.

Um “único Senhor”

Se Deus é “o único Senhor”, não nos é permitido ter outro além d’Ele. Sem embargo, quem se apega a uma criatura ― seja ela uma caneta, um travesseiro, uma pessoa… ― constitui um outro senhor que não o Deus verdadeiro, “pois o homem é fei­to escravo daquele que o venceu” (II Pd 2, 19). Isto representa uma falta contra o Primeiro Mandamento da Lei de Deus a ser declinada no confessionário. De fato, tal preceito viola-se com mais facilidade do que se imagina: basta amar algo com maior intensidade do que a Deus! Quantos sabem a fundo o que é amar a Deus sobre todas as coisas? Não existe atividade humana que possa ser realizada sem visar esta Lei.

“De todo o teu coração, de toda a tua alma”

Afirma São João da Cruz que “Deus não infunde sua graça e seu amor senão de acordo com a vontade e o amor da alma”.3 Por isso é preciso amá-Lo de todo o coração ― e não apenas com uma parcela! ―, colocando-O no cerne de nossas atenções, de nosso fervor, de nosso entusiasmo e de nossas preocupações. “A expressão ‘de todo’ não admite nenhuma divisão em partes. Aquilo que de teu amor empregares nas coisas inferiores é o que te faltará com relação ao ‘todo’”,4 comenta São Basílio Magno.

Na linguagem corrente o coração simboliza o amor. Den­tre os órgãos humanos ele é o mais sensível às emoções e cons­titui a fonte de onde brota a caridade. O Apóstolo de Roma, São Filipe Néri, certa ocasião em que rezava percebeu ser pe­netrado por uma esfera de fogo que lhe produziu no peito uma proeminência do tamanho de um punho, a qual se manteve no restante de sua vida e, se­gundo revelaria sua autóp­sia, partiu-lhe duas coste­las. Seu coração foi invadi­do por um amor a Deus de tal modo impetuoso que, com frequência, o Santo era obrigado a se descobrir para não ser consumido pelo ardor que o abrasa­va, receando morrer de gozo. Muitos contempo­râneos atestam ter notado este calor e até ouvido as fortes palpitações que de­le partiam.5 Tão particular dom místico é bem o sinal do arrebatado amor que todo cristão há de abrigar em seu coração. Tal amor deve ser ao mesmo tempo afetivo, ou seja, um ato da vontade que tende a Deus de maneira direta e ime­diata, e efetivo, refletindo­-se no exercício das virtu­des cristãs e na obediência aos Mandamentos, como ensinou o Divino Mes­tre: “Se alguém Me ama, guardará a minha palavra” (Jo 14, 23). Em sentido oposto, São João Evangelista é categóri­co ao declarar: “Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai” (I Jo 2, 15). Por conseguinte, amar “de todo o cora­ção” significa desprender-se de qualquer apreço egoísta e ter as intenções voltadas com exclusividade para Deus, fazendo tudo por Ele e para Ele. Assim será o nosso amor no Céu, onde ve­remos a Deus face a face e estaremos absortos em sua infinita grandeza.

Como amá-Lo, ainda, de toda a alma? Sabemos que a al­ma possui várias faculdades — tais como inteligência, vontade, memória — com as quais podemos nos dirigir a Deus. Para pra­ticar a caridade é indispensável manter nossa alma sempre em estado de graça, afastando-nos daquilo que possa nos induzir a romper com Deus, isto é, permanecendo vigilantes, a fim de evitar as ocasiões de pecado. Precisamos, ademais, criar ao nos­so redor um clima sobrenatural propício a que estas potências, divinizadas pelas virtudes e pelos dons do Espírito Santo, se de­senvolvam e nos unamos cada vez mais a Deus.

“De todo o teu entendimento e com toda a tua força”

São Tomás de Aquino6 explica que o entendimento é a potência que nos faculta o conhecimento da verdade. Ora, sen­do Deus a Verdade Absoluta, a finalidade do entendimento é conhecer a Deus tanto quanto seja possível neste mundo, com vistas à eternidade, conforme a afirmação de Nosso Senhor: “a vida eterna consiste em que conheçam a Ti, um só Deus verda­deiro, e a Jesus Cristo que enviaste” (Jo 17, 3). Por este prisma, a fé e o entendimento se harmonizam sem qualquer dicotomia. Enquanto a inteligência dá o sustento racional para aderir ao objeto da fé, esta sublima aquela, fazendo-a voar como uma águia. Deste modo, a razão iluminada pela virtude da fé é um instrumento para crescermos na caridade e nos prepararmos para contemplar a Deus em sua própria luz no Céu, onde a fé se mudará em visão. Difícil será encontrar um melhor modelo disto do que o mesmo Doutor Angélico. Sem nunca se ensober­becer, ele empregou sua inteligência ― talvez a mais luminosa que os séculos contemplaram ― na constante procura daquela Verdade em essência, fim único de sua vasta obra, merecendo de um Papa o seguinte elogio: “sua doutrina não pôde existir sem um milagre”.7 E essa genialidade intelectual não lhe foi obs­táculo para conservar íntegra a inocência batismal, a ponto de o sacerdote que o atendeu em Confissão geral no leito de mor­te declarar tê-lo achado “tão puro quanto um menino de cinco anos”.8

E qual é a força com que nos é exigido amar? A resposta nos é dada pelo Divino Redentor: “Como o Pai Me ama, assim também Eu Vos amo” (Jo 15, 9). Se Ele nos amou até o extre­mo (cf. Jo 13, 1) e esta é a medida de seu amor, reciprocamente o nosso deve ser sem medida, como ensina São Bernardo.9 O amor autêntico e puro existe quando aquele que ama retribui na proporção do amor recebido. Não nos basta alcançar um de­terminado grau de caridade e nele permanecermos estagnados; nossa meta há de ser a indicada por São Paulo: “que a vossa ca­ridade se enriqueça cada vez mais” (Fl 1, 9).

A primazia do amor a Deus

Apesar de sua importância, este Mandamento costuma ser silenciado e relegado ao esquecimento. Propaga-se e difunde­-se a ideia de que o preceito mais excelso e superior a todos é o amor ao próximo… Contudo, o do amor a Deus é, sem dúvi­da, o mais elevado, e os outros decorrem dele. Por isso, é mister construir a nossa vida em função dele, cuidando de que os nos­sos afazeres nunca se sobreponham ao amor a Deus, mas nos auxiliem a melhor servir e louvar Aquele que nos redimiu, por nós derramando seu Sangue. Qualquer esforço, portanto, que não esteja dominado por este propósito, mesmo no campo do apostolado, será vão. Santo Antônio Maria Claret10 comparava o amor a Deus com a pólvora que impulsiona a bala de um fuzil para atingir seu objetivo. Sem esta, inútil é o projétil. Também, pouco ou nenhum fruto terão doutas palavras se não saírem de um coração abrasado. “No entardecer desta vida” ― diz São João da Cruz ― “sereis julgados segundo o amor”.11 Com efeito, no dia do Juízo o Senhor nos perguntará: “O que amaste? Se foi a Mim, o meu Reino te está reservado; se o contrário de Mim, espera-te o inferno”. Em suma, tudo se reduz à caridade. Desde que a pratiquemos com perfeição, ou pelo menos, a despeito de nossas misérias, haja empenho de nossa parte, Deus nos tratará com especial benevolência.

III – O segundo Mandamento

Ao término de cada dia da criação, Deus viu que sua obra era boa e, no sétimo, ao contemplar a sua totalidade concluiu que era ótima. Esta distinção mostra quanto o conjunto Lhe dá mais alegria do que uma pessoa considerada individualmente. Sua intenção ao criar o homem não foi torná­-lo anacoreta do deserto ― salvo raras exceções ―, mas fazê-lo viver em sociedade, como se depreende das palavras do Gêne­sis: “Não é bom que o homem esteja só” (2, 18).

Por tal razão, ao indicar o maior dos Mandamentos, Jesus Cristo não separa o amor a Deus do amor ao próximo: “estes dois Mandamentos estão vinculados um ao outro e podem in­tercambiar-se entre si: quem ama a Deus ama as suas obras. A principal obra feita por Ele é o homem: em consequência, quem ama a Deus deve amar todos os homens”.12 O amor a Deus nun­ca será verdadeiro se não se desdobrar em amor ao próximo, como afirma São João: “aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê” (I Jo 4, 20). O Sal­vador conjuga estes amores para mostrar como eles constituem o que há de mais alto na Lei divina.

Quem era o próximo para um israelita?

31 “O segundo Mandamento é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro Mandamento maior do que estes”.

Embora o Mestre fizesse referência a uma conhecida passagem da Lei (cf. Lv 19, 18), o fa­to de atribuir tal impor­tância ao amor ao pró­ximo soava como uma novidade. Para seus ou vintes esta segunda parte não sintetizava os demais Mandamen­tos tão bem quanto a primeira, porque o relacionamento huma­no era compreendido pelo povo eleito segundo critérios muito restritivos. Uma das dificuldades estava no conceito de próximo, como se pode perceber pela pergunta de outro doutor da Lei, a quem Jesus respondeu contando a parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 25-37).

Havia entre os judeus um equívoco no modo de conside­rar o próximo, cuja origem remonta ao tempo de sua chegada à Terra Prometida. Antes de introduzir o povo em Canaã, Deus fizera um pacto com Moisés, ordenando que expulsassem todos os pagãos que ali habitavam e proibindo-os de estabelecer qual­quer tipo de aliança com eles (cf. Nm 33, 50-56). Aconteceu, contudo, que ao perceberem os benefícios materiais que podiam auferir dos ocupantes daquela região, quebraram o juramento e se uniram aos idólatras (cf. Jz 1, 27-35). Como castigo, um Anjo reuniu os hebreus num local chamado Boquim — que quer di­zer “os que choram” — e anunciou que seriam escravizados por aqueles mesmos povos (cf. Jz 2, 1-5).

Tudo isso concorreu para a formação entre os israelitas de uma ideia muito restrita de quem era o próximo: somente os fi­lhos da nação eleita. Já os estrangeiros eram tidos como criatu­ras destinadas ao inferno, a não ser que assimilassem a Religião de Israel e se submetessem a seus rituais. Apenas neste caso se­riam admitidos, todavia com reservas, como os mais distantes dentre os próximos.

Um Mandamento antigo, com uma visualização nova

Jesus universalizava a noção de próximo com algo inédito que não abolia a legislação em vigor — com tanta frequência inobservada —, mas a completava e levava à perfeição. Peran­te aqueles homens de costumes bárbaros, cujo trato se baseava numa catarata de desprezo, Ele apontava para uma medida de amor muitíssimo superior à da Lei Mosaica, como mais tarde ainda anunciaria: “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34). Amor este que só é possível com o auxílio da graça, não pelo esforço humano. Cum­pre, pois, dar, dar de si, dar-se por inteiro e, se necessário for, entregar a vida à imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que nosso irmão receba todos os benefícios da Redenção e se salve. É uma perspectiva nova não só para a época de Nosso Se­nhor, como também para nós que, embora nascidos no regime da graça, fomos concebidos no pecado original e temos a ten­dência de delimitar o nosso amor segundo os critérios da Lei Antiga.

Entre os inúmeros episódios da História da Igreja que tor­nam patente este princípio, é muito eloquente o do presbítero Saprício, no século III. Prestes a obter a coroa do martírio, du­rante a violenta perseguição de Valeriano, recusava-se ele uma e outra vez a perdoar seu discípulo Nicéforo, com quem se desen­tendera gravemente algum tempo antes. Por fim, com a cabeça já no cepo para ser cortada pelo carrasco, o orgulho foi mais forte e Saprício renegou a Fé, para queimar incenso aos ídolos, enquanto São Nicéforo era sacrificado em seu lugar.13 De nada serviu, na hora suprema, um pretenso amor a Deus para quem fechara seu coração diante do irmão que implorava com humil­dade a reconciliação.

O exemplo de Cristo: amor ao Pai e amor a nós

À luz da declaração do Divino Mestre e de casos como o precedente podemos compreender a verticalidade e a horizon­talidade da lei do amor. Por este prisma, a Santa Cruz é a figura que sintetiza a lição desta Liturgia. A Cruz é composta de uma trave vertical, representando as potências de nossa alma concen­tradas em Deus, acima de todas as coisas, e outra horizontal, símbolo do amor ao próximo como a nós mesmos — prolonga­mento do amor a Deus — e do chamado a sacralizar a socieda­de, com vistas à realização do pedido há dois mil anos reiterado pela Igreja militante: “venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu” (Mt 6, 10).

IV – Entendia que devia amar, mas… amava?

32 O mestre da Lei disse a Jesus: “Muito bem, Mestre! Na verdade, é como disseste: Ele é o único Deus e não existe outro além d’Ele. 33 Amá-Lo de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios”.

A exclamação do legista de­nota seu in­teresse e boa vontade em aceitar os ensina­mentos de Cristo, bem como seu assombro pela resposta, pois ele não saberia interpre­tar este preceito mo­saico com tal precisão. Ele repete o que Nos­so Senhor tinha dito, e acrescenta que amar a Deus e ao próximo “é melhor do que to­dos os holocaustos”. Como afirma São Be­da, “professava mani­festamente a doutri­na própria do Novo Testamento e da per­feição evangélica”,14 defendendo uma au­têntica tese cristã, ini­maginável face à mentalidade e aos costumes dos fariseus. Com efeito, eles mentiam, roubavam, cometiam qualquer espécie de crimes e julgavam que o oferecimento de uma vítima era sufi­ciente para limpar estas faltas, porque o sacrifício sobrepujava todos os demais atos. Neste sentido, o mestre da Lei dera um grande passo, mas ainda devia dar outro mais importante.

A inteligência nos deixa às portas do Reino de Deus

34a Jesus viu que ele tinha respondido com inteligência, e disse: “Tu não estás longe do Reino de Deus”.

As palavras de Cristo são pesadas, con­tadas e medidas, objeti­vas e com um significa­do exato. Ele não disse que havia chegado ao Reino de Deus, e sim que o escriba estava perto dele. Este respon­dera “com inteligência”, porque era capaz de dis­correr sobre o Primeiro Mandamento com faci­lidade, tendo muito cla­ra toda a teoria a respei­to, mas carecia de espí­rito sobrenatural. A boa doutrina, de fato, é uma ajuda preciosa — de um valor absoluto enquanto fundamentada na Palavra de Deus — e não pode ser desprezada. No entanto, não é suficiente conhecê-la… E sempre que os homens se baseiam no simples raciocínio e não procuram a sabedoria oriunda do amor puro e íntegro, surgem as heresias.

A inteligência, portanto, não bastou ao mestre da Lei; suas capacidades naturais haviam alcançado o limite máximo. O que lhe faltava? A virtude da caridade aperfeiçoada pelo dom de sa­bedoria. Pois adquirir vastos conhecimentos pela reta aplicação da inteligência é algo excelente, que nos aproxima do Reino dos Céus; não obstante, nele só entra quem ama e vive aquilo que aprendeu, como prescreve o Mandamento citado de cor pelo fa­riseu. Quando, durante uma pregação, anunciaram a Jesus que sua Mãe e seus irmãos estavam do lado de fora e desejavam vê­-Lo, Ele respondeu: “Minha mãe e meus irmãos são estes, que ouvem a Palavra de Deus e a observam” (Lc 8, 21).

Aquele mestre da Lei era convidado, então, a abandonar os conceitos farisaicos e a aceitar Nosso Senhor Jesus Cristo co­mo sendo a personificação da Lei e o cumprimento das profe­cias, reconhecendo-O como seu Criador e Redentor, o próprio Deus Encarnado. A aplicação concreta que faltava àquele ho­mem era dizer com fé: “Eu devo amar-Vos, Senhor, com toda a minha inteligência, com toda a força da minha vontade, com toda a minha sensibilidade. E se Vós ensinais que devo amar o meu próximo como a mim mesmo, minha obrigação é Vos amar muito mais do que a mim mesmo e servir-Vos”. Agindo assim, ele falaria não só com a inteligência, mas com o coração, prati­caria o Primeiro Mandamento e estaria na posse do Reino.

Nosso Senhor faz calar seus adversários

34b E ninguém mais tinha coragem de fazer perguntas a Jesus.

Este diálogo encerra a sequência de discussões recolhidas por São Marcos, das quais Jesus saiu vitorioso sobre todos os seus adversários. Eles comprovaram que o Divino Mestre era imbatível e se convenceram de que só por outros meios conse­guiriam atingir o objetivo de silenciá-Lo. “Depois de terem sido refutados não perguntam mais, mas prendem-No atrevidamente e entregam-No ao poder romano”,15 conclui São Beda.

V – Conhecer ou amar?

São Tomás16 demonstra que a inteligência e a vontade têm movimentos contrários: enquanto a primeira traz a si o objeto conhecido, a segunda voa rumo à coisa amada. Ao entendermos al­go inferior a nós mesmos, conferimos-lhe um valor maior do que na realidade tem. Por exemplo, quando analisamos uma joaninha e notamos as relações exis­tentes entre ela, a ordem do universo e Deus, e de­senvolvemos uma filosofia a respeito dela, atribuindo­-lhe qualidades que, abso­lutamente falando, talvez não possua, a joaninha se enriquece em nossa mente. Em sentido oposto, ao ten­tar compreender o que, de si, é superior a nós — um santo va­rão, um personagem repleto de sabedoria… —, acabamos por diminuí-lo, de maneira a caber em nosso intelecto.

Como a vontade, por sua vez, realiza a trajetória inversa e se inclina até o objeto tal qual ele é, tratando-se de algo me­nor do que nós, ela se empobrece; porém, face ao que é mais elevado, ela se dilata. Sobretudo se amamos a Nossa Senhora e a Deus, nossa vontade assume proporções extraordinárias. Eis o segredo da força dos grandes homens, capazes de sublimes atos de heroís­mo: eles amam verdadeiramente.

O amor é mais importante, mas não desdenhemos a inteligência

Conhecimento e amor! Duas asas que precisam estar bem ajustadas e cultivadas para alçarmos voo no firmamento da san­tidade. De acordo com as regras do paraquedismo, na queda livre é indispensável manter os braços abertos e firmes, a fim de se obter estabilidade, pois basta fechar um dos dois membros para o corpo rodopiar e perder o equilíbrio. Tal é o que acontece na vida espiritual quando tentamos voar com apenas uma asa.

Todos nós temos obrigação de estudar e levar a inteligên­cia até onde ela alcança, segundo a medida de cada um. Este empenho, entretanto, tem de ser acompanhado por um amor a Deus de todo o coração, de toda a alma, de toda a mente e com toda a força, adequando a vida à doutrina aprendida e procu­rando ao máximo exercitar-nos na virtude. Para um católico, os Mandamentos são como uma escada rolante, cujos dez degraus o conduzem à perfeição, com amor. Ora, isto só é possível com o impulso da graça, com a assistência de Nosso Senhor Jesus Cristo e em união com Maria Santíssima. N’Eles está a nossa força, n’Eles devemos pôr a nossa segurança, n’Eles encontra­remos os elementos e o equilíbrio necessário para entender e para amar. Tenhamos uma correspondência cheia de luz e de substância para dar a Eles toda a glória, a honra e o louvor que merecem!

 

 

Homilia do Mons. José Maria – XXII Domingo do Tempo Comum – Ano B

O que mancha o homem

O Evangelho (Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23) mostra quando os fariseus e alguns mestres da Lei se reuniram em torno de Jesus e lhe perguntaram por que os discípulos não seguiam a tradição dos antigos, mas comiam o pão sem lavar as mãos. Jesus, citando Isaías, lhes respondeu que eles eram um povo que O honrava com os lábios, mas seu coração estava longe dele. De nada adianta o culto que prestavam, pois as doutrinas que ensinavam eram preceitos humanos. E concluiu, dizendo que eles tinham abandonado o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens.

E, disse Jesus, que o que torna impuro o homem não é o que entra nele, vindo de fora, mas o que sai de seu interior. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, etc…

Deus olha o interior das pessoas e não as práticas exteriores e formais.

É hipocrisia lavar escrupulosamente as mãos ou dar importância a qualquer outra exterioridade, se o coração estiver cheio de vícios.

As ações do homem procedem do coração. E se este está manchado, o homem inteiro fica manchado.

Jesus rejeita a mentalidade que se ocultava por trás daquelas prescrições desprovidas de conteúdo interior, e ensina-nos a amar a pureza de coração, que nos permitirá ver a Deus no meio das nossas tarefas.

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).

A pureza de alma – castidade e retidão interior nos afetos e sentimentos- tem que ser plenamente amada e procurada com alegria e com empenho, apoiando-nos sempre na graça de Deus. Só pode ser alcançada mediante uma luta positiva e constante, prolongada ao longo de uma vida que se mantém vigilante pelo exame de consciência diário; também fruto de um grande amor à Confissão frequente, bem feita, mediante a qual o Senhor nos purifica e nos “lava” o coração, cumulando-nos da sua graça.

Com a ajuda da graça, é tarefa de todos os cristãos mostrar, com uma vida limpa e com a palavra, que a castidade é uma virtude essencial a todos – homens e mulheres, jovens e adultos-, e que cada um deve vivê-la de acordo com as exigências do estado a que o Senhor o chamou; “é exigência de amor. É a dimensão da sua verdade interior no coração do homem, e sem ela não seria possível amar nem a Deus nem aos outros” (Beato João Paulo II).

Essa pureza cristã, a castidade, sempre constituiu uma das glórias da Igreja e uma das manifestações mais claras da sua santidade. Hoje, como nos tempos dos primeiros cristãos, muitos homens e mulheres procuram viver a virgindade e o celibato no meio do mundo – sem serem mundanos -, por amor do Reino dos Céus (Mt 19,12). E uma grande multidão de esposos cristãos vivem santamente a castidade segundo o seu estado matrimonial. Como ensina a Igreja: “tanto o matrimônio como a virgindade e o celibato são dois modos de expressar e de viver o único mistério da Aliança de Deus com o seu povo” (Familiaris Consortio, 16).

Façamos como oração, como jaculatória, a prece que a liturgia dirige ao Espírito Santo, na festa de Pentecostes: “Limpa na minha alma o que está sujo, rega o que se tornou árido, sem fruto, cura o que está doente, dobra o que é rígido, aquece o que está frio, dirige o que se extraviou.”

Sozinhos nós não somos capazes de purificar nosso coração das intenções más e de nos abrirmos de modo justo à novidade do Espírito: devemos confiar-nos, para tanto, à força redentora de Cristo que se torna operante em nós, na Eucaristia… Graças à Eucaristia, podemos dizer com ainda maior razão aquilo que dizia Moisés: “Qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos, como o Senhor nosso Deus?” (Dt 4,7).

No mês da Bíblia, intensifiquemos a leitura, a meditação, da Palavra de Deus! Possamos acolhê-La e colocá-La em prática! Ensina São Tiago: “Sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,22).

Como ensinava S. Francisco de Assis: “O homem vale o que é diante de Deus e nada mais.” Jesus desloca todo o sentido da lei do exterior para o interior, da boca para o coração, de “fora” do homem para “dentro” do homem, como diz retomando uma expressão de Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim…” (Mc 7,6).

A quem dirige Jesus todas essas observações? Somente aos fariseus de seu tempo? Não! Diz-nos Jesus: “Escutai, TODOS, e compreendei…” (Mc 7,14).

Também o Apóstolo Tiago (Tg 1,22 ), alerta para o perigo de uma religiosidade falsa. Ele escreve aos cristãos: “Sede cumpridores da Palavra de Deus e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”.  A Virgem Maria, à qual agora nos dirigimos em oração, nos ajude a ouvir a Palavra de Deus com um coração aberto e sincero, para que oriente todos os dias os nossos pensamentos, escolhas e obras.

Mons. José Maria Pereira

CELEBRAÇÃO DO 21º DOMINGO TEMPO COMUM – ANO B

A leitura de Josué lembra que estamos nos anos que se seguiram à entrada do povo na Terra Prometida. Moisés já havia morrido. Josué assume a liderança. Tempos difíceis e com muitas incertezas, por causa do contacto do povo com muitos deuses no tempo de escravidão, conservando muitas simpatias no coração por alguns deles.

Josué, depois das conquistas e organizações iniciais, reúne o povo para conservar com ele sobre qual Deus seria o deus oficial. E para não ficarem dúvidas e muito menos inseguranças, exige uma resposta clara, firme e definitiva do povo.

Isso, à primeira vista, parece estranho, uma vez que, no Egipto e durante o êxodo, Javé se manifestara libertador, amigo do povo, selando com ele uma aliança no Sinai. Mas os tempos mudaram. A situação económica era outra, a realidade política tão diferente e as ambições começaram afectar as relações sociais e religiosas. Muitos se perguntavam se Javé deveria continuar sendo o Deus único e capaz de ajudar Israel.

Josué, diante da nova situação, organiza a assembleia de Siquém, reunião constitutiva do povo. É o ponto de partida de um movimentado que tem raiz no êxodo. Todos devem aceitar sua nova identidade de povo da aliança, com repercussões na vida social e política, bem como cultural e religiosa. Exige uma escolha sem rodeios: “Se vos desagrada servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir… Porque, quanto a mim, eu e minha casa serviremos ao Senhor”.

E o povo respondeu sem hesitação: “Longe de nós abandonarmos o Senhor; temos certeza que não há Deus melhor do que Ele”.

As palavras “nos tirou, a nós e a nossos pais…” , tantas vezes repetidas, se referem ao povo reunido em Siquém que não esteve no Egipto e, em sua maioria, não passou pelo deserto. Mas todos estavam lá, na casa da escravidão, e todos foram libertos. É a fé em Deus aliado dos pobres, e não o sangue que nos une nessa aliança tribal.

O tema central da assembleia de Siquém é fazer a opção consciente de quem o povo deseja servir. Opta pelo Deus do êxodo: aquele que vê a opressão do povo, que ouve o grito de dor e conhece seus sofrimentos; que está decidido a descer para libertá-lo do poder dos opressores (Ex 3, 7-8). É o Deus de seus pais, o Deus da história. Os deuses “estranhos”, imagens corrompidas de Deus, geram escravidão e morte.

O Salmo 33 (34) constitui uma acção de graças, pela presença e acção libertadora de Deus. Ele escuta a oração dos simples e se faz próximo dos seus sofrimentos. Ensina-lhes sabedoria, mata a sua fome e defende a vida de todos. Por isso, nada falta aos que o procuram e seguem os seus passos. Ele é a paz e salvação dos justos. O salmista convida-nos a louvar a Deus com ele e, aludindo ao grande perigo de que foi libertado, diz-nos como o Senhor é bom e tudo dá aos que o procuram e temem.

Aos Efésios, Paulo sugere orientações para a vida em família e no relacionamento marido-pessoa. Inserido na cultura do tempo, considera o marido cabeça da mulher. Entende o relacionamento homem-mulher na perspectiva da teologia da Igreja, onde Cristo é a sua cabeça.

Ninguém duvida de que a Igreja deva se submeter e obedecer a Cristo-cabeça. E se não fizer isso, perde a sua identidade e razão de ser. Obviamente que, hoje, o mesmo não se pode afirmar na relação marido-esposa.

Mas qual o significado da expressão: “Sejam submissos uns aos outros por temor a Cristo”? Cristo, na verdade, é o ponto de partida para todo o tipo de relacionamento entre as pessoas. E a carta aos Filipenses (2,5-11) explica o sentido do temer a Cristo; Ele se pôs a serviço de todos, desceu ao nível social último e se fez servo obediente até a morte, e morte de cruz.

Nesse contexto, fica clara a missão e a tarefa do marido: “Que os maridos amem as suas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela. Assim devem os maridos amar suas esposas como a seus próprios corpos. Quem ama sua esposa, ama a si mesmo”.

Não esqueçamos que o autor, nesta carta, desenvolve uma teologia da Igreja: Deus revelou todo o mistério de sua vontade de unir em Cristo todas as coisas.

O Evangelho, conclusão do capítulo 6 de João, mostra como a encarnação e a eucaristia andam de mãos dadas, mexem com as pessoas e as levam a um posicionamento: aceitam Jesus e se abraçam com Ele, ou se chocam e escandalizam com Ele e se afastam do seu projecto de vida e liberdade.

Diga-se de passagem: Jesus, de fato, frustrou as expectativas e esperanças de muitos. Depois dos milagres, sinais e prodígios, concluem: “Este é o profeta que devia vir ao mundo…” e querem agarrá-lo para fazê-lo rei, mas Jesus foge sozinho para a montanha.

Nem todos entenderam a proposta de Jesus, e Ele passa a actualizar o sentido dos acontecimentos. José Bortolini resume a explicação de Jesus: “Na pessoa de Jesus, Deus oferece à humanidade um pão que sustenta para sempre. Esse pão é a pessoa de Jesus, o maior presente que o Pai fez ao mundo. Quem recebe o pão e o assimila (Eucaristia), descobre que Deus lhe confia uma tarefa, que é a adesão a Jesus, tornando-se, também, pão partilhado para a vida de todos (encarnação). Não há meio-tempo: quem recebe Jesus como pão não pode eximir-se da responsabilidade de ser, como Ele, pão para a vida dos outros. A Eucaristia e a encarnação põem as pessoas diante de uma decisão. E aqui surgem muitas crises e abandonos.” (José Bortolini, Roteiros Homiléticos, Anos A, B,C – Festas e Solenidades; Paulus, São Paulo, 2008, p.429).

De fato, a tentação é buscar uma religião fácil, sem compromissos nem maiores consequências. Mas, no plano de Deus, essa religião e liturgia não existem. A verdadeira religião é assumir a prática e a doação de Jesus em favor dos menos favorecidos. Liturgia é memória e mergulho no mistério do pão partilhado, a Páscoa de Jesus.

Por causa disso, Jesus decepcionou muita gente. Ele não procurou a glória das pessoas nem prometeu glória aos seus seguidores. A realeza e a glória de Jesus consistem em doar-se radicalmente até esgotar a própria vida.

Eucaristia e glória. O pão não tem fim em si mesmo. Existe para ser consumido e devolver as forças para quem passa fome. Os que amam sabem que a vida não tem sentido se não se traduzir em pão, em dom a ser partilhado com os outros.

E Jesus mostra que a vida é para ser partilhada, e a morte pode se tornar a maior expressão de amor. Ele não dispensa ninguém de dar a vida até a morte, se for preciso. Judas, aquele que entregou Jesus, não entendeu a vida como oferta para os outros. Mas viu a vida como um bem a ser conservado egoisticamente. Em vez de doar a sua vida, entregou Jesus à morte. Ou seja, faz a opção pela morte.

Jesus, antes de elevar-se para a glória de Deus, assume a cruz, numa oferta total de sua vida. Sua “subida” é o gesto supremo de serviço à humanidade que precisa de paz, de reconciliação e de alegria. Muitos o entenderam. Outros não, e, por isso, deixaram de segui-lo, porque sua proposta foi tornando-se muito exigente, humanamente inaceitável.

Confessar que Jesus é o “santo de Deus” e reconhecer que não há outro caminho significa aderir a Ele, continuando e realizando o que Ele fez como peregrino e missionário do Pai.

3. Actualizando a Palavra

Há uma pergunta nos bastidores da Igreja e na consciência dos cristãos: o que significa e implica servir ao Deus verdadeiro, nos dias de hoje?

É duro admitir que a fé na Eucaristia não seja unicamente crer na presença de Jesus nas espécies do pão e vinho, mas também no pobre, no aleijado, no espoliado, no maltrapilho, e que Ele encarna-se na realidade concreta das pessoas.

O que significa ser pão para os outros? Por que muita gente se escandaliza e cai fora quando mostramos os compromissos da Eucaristia? Aparece hoje um certo “espiritualismo eucarístico” que esconde e escamoteia a encarnação de Jesus no contexto histórico.

A fé exige decisão e adesão sem reservas àquele cujas palavras prometem e comunicam a vida eterna. Jesus é efectivamente o enviado que Deus consagrou. A escolha para segui-lo não suprime a liberdade e não impede a possibilidade de traição. Seguir Jesus impõe condições que nem todos aceitam. Servir o Senhor da vida é penoso e exigente, e podemos sucumbir à tentação de “ir embora” e largar o seguimento.

Hoje existem formas discretas de nos retirar da caminhada sem dar muito na vista: ficar na comunidade sem assumir ou sem se importar com o projecto de Jesus, vivendo uma religião como rotina, para ter a consciência em paz; escolher trechos mais convenientes do Evangelho e fingir não ver as exigências cristãs da caridade, da justiça e da acção transformadora da sociedade; inventar um Jesus a nosso gosto, que nos incomode pouco, ou nada, e faça sempre a “nossa vontade”.

Será que é possível se dizer cristão, frequentar a igreja, sem de fato ter tomado uma decisão verdadeira de seguimento a Jesus e de compromisso com o seu projecto?

4. Ligando a Palavra e a Eucaristia

Na celebração, nos abrimos ao convite que o Senhor nos faz pela Palavra a uma opção decisiva por Ele, superando os estímulos da “carne” para viver no espírito. Professamos nossa fé inspirada na afirmação de Pedro. “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o santo de Deus”.

Na liturgia eucarística, fazemos memória da doação e entrega de Jesus por nós. Rendemos graças por tamanho gesto de bondade e generosidade. Agradecemos ao Pai, que, em Jesus, fez uma opção amorosa e comprometedora pela humanidade. Ao celebrar o “mistério da fé”, somos provocados a superar as aparências e olhar com os olhos da fé o mistério de nossa vida e da vida dos irmãos e irmãs.

Suplicamos que Ele nos ensine a não fugirmos dos conflitos e a não perdemos a alegria de viver, apesar das dificuldades encontradas em nosso caminho. Buscamos forças e inspiração para a nossa maior e mais radical doação em prol de um projeto de vida para todos.

A Eucaristia nos coloca diante de Cristo e nos pede uma opção pronta e decisiva. A Palavra proclamada é luz, e o pão que recebemos é força e alimento, em vista de uma resposta positiva e responsável.

D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

 

A HOMILIA E O CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA –

ANO B

DOMINGO XIX DO TEMPO COMUM

 

CIC 1341-1344: “Fazei isto em memória de Mim”

 

1341 Ao ordenar para que repetissem os seus gestos e palavras «até que Ele venha»,
Jesus não pede somente que se lembrem d’Ele e do que Ele fez. Tem em vista a
celebração litúrgica, pelos apóstolos e seus sucessores, do memorial de Cristo,
da sua vida, morte, ressurreição e da sua intercessão junto do Pai.

1342 Desde o princípio, a Igreja foi fiel à ordem do Senhor. Da Igreja de Jerusalém
está escrito:
«Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações.
[…] Todos os dias frequentavam o templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão
em suas casas; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração» (Act 2, 42.46).

1343 Era sobretudo «no primeiro dia da semana», isto é, no dia de domingo, dia da
ressurreição de Jesus, que os cristãos se reuniam «para partir o pão» (Act 20, 7).
Desde esses tempos até aos nossos
dias, a celebração da Eucaristia perpetuou-se,
de maneira que hoje a encontramos em toda a parte na Igreja com a mesma
estrutura fundamental. Ela continua a ser o centro da vida da Igreja.

1344 Assim, de celebração em celebração, anunciando o mistério pascal de Jesus «até
que Ele venha» (1 Cor 11, 26), o Povo de Deus em peregrinação «avança pela
porta estreita da cruz»1 para o banquete celeste, em que todos os eleitos se
sentarão à mesa do Reino.

 

CIC 1384-1390: “Tomai, todos, e comei”: a Comunhão

 

1384 O Senhor dirige-nos um convite insistente a que O recebamos no sacramento
da Eucaristia: «Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do
Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós» (Jo 6,53).

1385 Para responder a este convite, devemos preparar-nos para este momento tão
grande e santo. São Paulo exorta a um exame de consciência: «Quem comer o
pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do
Senhor. Examine-se, pois, cada qual a si mesmo e então coma desse pão e beba
deste cálice; pois quem come e bebe, sem discernir o corpo do Senhor, come
e bebe a própria condenação» (1 Cor 11, 27-29). Aquele que tiver consciência
dum pecado grave deve receber o sacramento da Reconciliação antes de se
aproximar da Comunhão.

1386 Perante a grandeza deste sacramento, o fiel só pode retomar humildemente
e com ardente fé a palavra do centurião2: «Domine, non sum dignus, ut intres
sub tectum meum, sed tantum dic verbum, et sanabitur anima mea – Senhor,
eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma [só] palavra
e serei salvo»3. E na divina liturgia de São João Crisóstomo, os fiéis oram no
mesmo Espírito:
«Faz-me comungar hoje, ó Filho de Deus, na tua ceia mística. Porque eu não revelarei
o segredo aos teus inimigos, nem te darei o beijo de Judas. Mas, como o ladrão, eu te
suplico: Lembra‑Te de mim, Senhor, no teu Reino»4.

1387 Para se prepararem convenientemente para receber este sacramento, os fiéis
devem observar o jejum prescrito na sua Igreja5. A atitude corporal (gestos,
traje) deve traduzir o respeito, a solenidade, a alegria deste momento em que
Cristo Se torna nosso hóspede.

1388 É conforme ao próprio sentido da Eucaristia que os fiéis, se tiverem as
disposições requeridas6, recebam a Comunhão quando participam na missa7:
«Recomenda-se vivamente aquela mais perfeita participação na missa em que
os fiéis, depois da comunhão do sacerdote, recebem, do mesmo sacrifício, o
corpo do Senhor»8.

1389 A Igreja impõe aos fiéis a obrigação de «participar na divina liturgia nos domingos
e dias de festa»9 e de receber a Eucaristia ao menos uma vez em cada ano, se
possível no tempo pascal10, preparados pelo sacramento da Reconciliação. Mas
recomenda-lhes vivamente que recebam a santa Eucaristia aos domingos e dias
de festa, ou ainda mais vezes, mesmo todos os dias.

1390 Graças à presença sacramental de Cristo sob cada uma das espécies, a comunhão
apenas sob a espécie de pão permite receber todo o fruto de graça da Eucaristia.
Por razões pastorais, esta maneira de comungar estabeleceu-se legitimamente
como a mais habitual no rito latino. «A sagrada Comunhão tem uma forma mais
plena, enquanto sinal, quando é feita sob as duas espécies. Com efeito, nesta
forma manifesta-se mais perfeitamente o sinal do banquete eucarístico»11. É a
forma habitual de comungar, nos ritos orientais.
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DSC00220 Igreja Paroquial de Silgueiros

 

  Igreja Mosteiro Antiga Igreja Paroquial em Mosteiro

 

  N.Sra da Natividade Padroeira Na. Sra. da Natividade

 

DSC00222 Na. da Conceição